Síndrome do Intestino Irritável? Recomendações em tempo de confinamento

Estima-se que 10-15% da população mundial tenha Síndrome do Intestino Irritável (SII). Em tempo de confinamento, é importante adotar estratégias de estilo de vida que poderão promover a diminuição da sintomatologia, e melhorar a sua qualidade de vida.

Em 1977, a Fundação Internacional dos Distúrbios Gastrointestinais nomeou o mês de abril como o ‘Mês da Consciencialização para o Síndrome do Intestino Irritável’[1]. Esta condição, caracteriza-se pela dor abdominal e alterações nos hábitos de defeção que a dividem em 4 subtipos – diarreico, obstipado, misto (alternância entre estados de diarreia e de obstipação) e não classificado[2]. Estima-se que 10-15% da população mundial tenha Síndrome do Intestino Irritável (SII) – incidência que parece estar a aumentar[1]. Devido à sua patogénese multifatorial, não existe uma cura, tendo de haver um ajuste da estratégia terapêutica à sintomatologia, e é essencial ter consciência de como a SII pode ser gerida da melhor forma.

Em abril de 2020, mantém-se o estado de emergência devido à pandemia COVID-19, acontecimento único, do qual não se pode alienar, mas pelo contrário deve perspetivar este tempo como uma oportunidade.

Sabendo que entre os mecanismos envolvidos na origem patogénese da SII estão a hipersensibilidade visceral, a alimentação, o microbiota e o eixo microbiota-intestino-cérebro, é importante adotar estratégias de estilo de vida que poderão promover a diminuição da sintomatologia, e consequente, melhorar a sua qualidade de vida[3, 4].

No último mês, em tempo de confinamento, já foi advertido para a importância de criar um horário ou estabelecer rotinas e nestas devemos garantir a inclusão do tempo de lazer! Outra excelente forma de ocupar o seu tempo é praticar exercício físico, alongamentos e exercícios de relaxamento. Para além de aliviarem o stress, são uma forma simples de atenuar os seus sintomas.

Nos estilos de vida, inclui-se a alimentação. Atualmente, 70-84% dos indivíduos SII referem que certos alimentos potenciam a sintomatologia e que modificações alimentares podem ser úteis no seu alívio[5, 6].

De facto, o aconselhamento alimentar poderá diminuir a sintomatologia, mas é importante reforçar que este deve personalizado. Como previamente descrito, esta patologia pode manifestar-se de forma até antagónica. Assim, deve evitar fazer restrições alimentares generalizadas, pois uma regra alimentar importante nesta pandemia é garantir a diversidade da sua alimentação. Fazer um registo alimentar detalhado, associado à sintomatologia desencadeada, pode ajudá-lo a si e ao seu nutricionista a chegar a um tratamento mais adequado. Invista o seu tempo na sua saúde!

REFEIÇÕES

A maior disponibilidade de tempo permitirá o planeamento das suas refeições, a realização de uma lista de compras adequada, de modo a evitar desperdício e a compra de alimentos nutricionalmente não tão interessantes, minimizando o tempo despendido no supermercado, e mais ainda, permitirá a preparação cuidada das mesmas.

É importante que as refeições constem no seu horário e sejam regulares, realizadas em ambiente calmo para obter o maior prazer do consumo alimentar.

A maior permanência em casa poderá traduzir-se numa disponibilidade de alimentos, a menos de meia dúzia de passos, e no aumento do snacking que deve ser evitado. Contudo, é importante não deixar intervalos de tempo demasiado longos entre as refeições principais, caso estes se traduzam num maior consumo alimentar. A chegada de uma grande quantidade de alimentos ao intestino, pela patologia mais sensível, poderá desencadear a sua estimulação excessiva, e aumentar a sintomatologia.

HIDRATAÇÃO

Manter-se hidratado é essencial! O consumo de sopa, hortícolas e fruta são uma forma de o fazer, sem esquecer a recomendação de ingerir, pelo menos, 6-8 copos de água por dia. O consumo de bebidas estimulantes com cafeína (café, chá ou certos refrigerantes) tem um efeito laxante e causa desconforto intestinal, efeito também potenciado pelo álcool ou pelos adoçantes artificias poliálcoois – sorbitol, manitol, xilitol, eritritol (refrigerantes e outros produtos light’s ou dietéticos, pastilhas elásticas).

FIBRA

A fibra é um tipo de hidrato de carbono que não está acessível às enzimas no intestino delgado humano, sofrendo ação das enzimas bacterianas na porção final do intestino grosso, cólon.

Tal como esta patologia, também a fibra pode ser classificada em vários subtipos, de acordo com a extensão da sua fermentação bacteriana, associada à produção de gás e consequente sintomatologia intestinal, e com sua solubilidade, capacidade de absorver água, de formar o bolo fecal e, consequentemente, aumentar o trânsito intestinal.

Indivíduos com SII devem evitar o consumo de farelo de trigo, cereais integrais, arroz e massa integral – fontes de fibra insolúvel que ao ser lentamente fermentada, potencia a produção de gás, causando desconforto. Por outro lado, o consumo de aveia ou psyllium, dado o seu maior grau de solubilidade, tem um efeito laxante positivo para indivíduos com SII do subtipo obstipado.

O consumo dos diferentes tipos de fibra deve ser sempre ajustado à sintomatologia, e sob orientação do nutricionista.

ESTRATÉGIAS ALIMENTARES MAIS RESTRITAS

A dieta pobre em FODMAP’s (Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides, and Polyols), ou seja, com teor diminuído de oligossacarídeos (frutanos – trigo, alho, cebola; galactanos – leguminosas), dissacarídeos (lactose – leite e derivados), monossacarídeos (frutose – frutas, compotas, mel e edulcorantes) e de polióis (sorbitol, manitol, xilitol, eritritol, etc) fermentáveis, também requer um acompanhamento personalizado por um nutricionista com experiência na área.

Se está descrito que uma dieta pobre em FODMAP’s pode diminuir a sintomatologia, a evidência mais atual revela que esta também está associada a uma alteração não benéfica do microbiota, com diminuição da sua diversidade, e especificamente de espécies do género Bifidobacterium[4, 7].

MICROBIOTA

O microbiota intestinal, conjunto de microrganismos (bactérias, vírus e fungos) que habitam o intestino humano, participa na patogénese da SII, tendo um papel fundamental naquilo que é a resposta aos alimentos ingeridos, pois estão envolvidos na sua digestão.

São vários os estudos que pretendem identificar qual o perfil de microbiota associado à SII. Ainda sem um consenso quanto a este perfil, a evidência mostra que uma maior severidade da patologia está associada a um aumento de espécies pró-inflamatórias pertencentes à família Enterobacteriaceae, e a uma diminuição das espécies dos géneros Lactobacillus e Bifidobacterium e da Faecalibacterium prausnitzii, bactérias associadas à promoção da saúde [4, 8].

A toma de probióticos (bactérias vivas) como Lactobacillus e Bifidobacterium, durante pelo menos 4 semanas associa-se à melhoria da sintomatologia, sendo necessários mais estudos para que a terapêutica (espécie de bactérias e duração do tratamento) seja também personalizada[8]. Entre os poucos estudos existentes, a evidência demonstra que a estirpe Bifidobacterium infantis 35624, melhora a dor, desconforto e distensão abdominal[4, 9].

Mais ainda, outro potencial fator modulador do microbiota, com interesse acrescido na SII dado a ação anti-inflamatória, são os ácidos gordos ómega-3. Investigação em modelos animais, mostra que a interação entre ácidos gordos ómega-3, microbiota intestinal e sistema imunitário contribui para a manutenção da integridade intestinal. Contudo a evidência ainda está em fase pré-clínica.

De facto, a ciência demonstra que uma abordagem baseada no microbiota, com intervenção alimentar associada à toma de probióticos, seja uma forma eficaz de gerir esta patologia[7].

Por fim, em abril de 2020, aproveite para aprender mais sobre a SII, ganhando consciência para os cuidados a ter no que se refere a alterações de estilo de vida e enraíze bons hábitos na sua rotina!

Inês Barreiros Mota
Nutricionista (3718N)
Nutrição e Metabolismo da NOVA Medical School | Faculdade de Ciência Médicas, UNL
Investigadora ProNutri, CINTESIS

REFERÊNCIAS:

1. International Foundation for Gastrointestinal Disorders. April Is Irritable Bowel Syndrome Awareness Month. 2020; April.
2. Lacy BE, Mearin F, Chang L, Chey WD, Lembo AJ, Simren M, et al. Bowel disorders. Gastroenterology. 2016;150:1393–407. doi:10.1053/j.gastro.2016.02.031.
3. Ghoshal UC. Marshall and Warren Lecture 2019: A paradigm shift in pathophysiological basis of irritable bowel syndrome and its implication on treatment. J Gastroenterol Hepatol. 2020;:1–10.
4. Pimentel M, Lembo A. Microbiome and Its Role in Irritable Bowel Syndrome. Dig Dis Sci. 2020;65:829–39. doi:10.1007/s10620-020-06109-5.
5. Simrén M, Månsson A, Langkilde AM, Svedlund J, Abrahamsson H, Bengtsson U, et al. Food-related gastrointestinal symptoms in the irritable bowel syndrome. Digestion. 2001;63:108–15.
6. Portincasa P, Bonfrate L, Bari O De, Lembo A, Ballou S. Irritable bowel syndrome and diet. Gastroenterol Rep. 2017;5 December 2016:11–9.
7. Moayyedi P, Simrén M, Bercik P. Evidence-based and mechanistic insights into exclusion diets for IBS. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2020.
8. Mari A, Baker FA, Mahamid M, Sbeit W, Khoury T. The Evolving Role of Gut Microbiota in the Management of Irritable Bowel Syndrome : An Overview of the Current Knowledge. J Clin Med. 2020;9.
9. O’Mahony L, Mccarthy J, Kelly P, Hurley G, Luo F, Chen K, et al. Lactobacillus and Bifidobacterium in irritable bowel syndrome: Symptom responses and relationship to cytokine profiles. Gastroenterology. 2005;128:541–51.

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